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O Carnaval,
definitivamente, foi fatídico. Além de não ter conseguido um mínimo de
diversão, arrumei um mal-estar dos diabos com um colega de trabalho que,
já na quarta-feira depois do almoço, veio me falar, em surdina e tom de
reprovação:
– Você devia ter me
contado antes...
– Devia ter contado o
quê? – indaguei, cheio de surpresa.
– Ora! Que você é um
dos nossos!
– ...!
– Não faça essa cara de
desentendido! Estamos só nos dois, aqui em sua sala... Não há perigo de
alguém escutar.
– ...!
– Eu vi você pegando um
táxi diante do Baile da Mariana.
Foi quando senti a
primeira pontada no peito. Não posso afirmar que foi uma dor, mas
pareceu-me naquele instante que alguém, ou alguma coisa, estava tentando
furar-me mais ou menos na altura da metade do peito, e do lado esquerdo.
Ao mesmo tempo, percebi que começava a tremer e a suar frio, aquele suor
pegajoso que antecede uma crise de vômito depois de uma bebedeira
homérica.
Controlando-me da
melhor maneira que podia e sem notar que estava manifestando toda a
minha carga de preconceito em relação à turma do GLS, quase gritei:
– Mas isso não quer
dizer nada! Não é porque eu peguei um táxi na frente de um baile de
bichas que eu sou um deles!
Baixando um pouco o tom
de voz, acrescentei:
– Eu estava ali de
passagem... Tinha ido visitar uma amiga ali perto...
– Tá bom! E o cabelo
cheio de confete? Estava havendo um baile de carnaval na casa dessa sua
amiga? – fez meu colega, sem esconder um tom ofendido em sua voz.
– S-sim... E-estava –
gaguejei.
E, achando que tinha
encontrado a saída para aquela situação, indaguei, em tom de desafio:
– Mas... E você? O que
estava fazendo ali, para poder enxergar os confetes em meu cabelo?
O outro, já caminhando
a passos duros para a porta de saída, falou:
– Eu sou gay...
Já deixei isso claro quando lhe disse que você deveria ser um dos
nossos, uma vez que foi ao Baile da Mariana.
Olhou por cima do ombro
para mim, passou a mão sobre a testa afastando uma mecha de cabelos num
gesto que ficaria muito bem na Cicarelli, e finalizou:
– Mas vejo que me
enganei... Ou, então, você é que está tentando enganar a si mesmo,
recusando-se a assumir a sua verdadeira sexualidade!
Não é preciso dizer que
não nos falamos mais, desde aquele dia e, pela forma como alguns outros
colegas passaram a me olhar, desconfio que ele tenha dado com a
língua nos dentes e que esses colegas também fazem parte do Time
do Arco-Íris.
Porém, não foi apenas
esse saldo negativo que o Carnaval me deixou. Minha maratona inútil em
busca de uma vã diversão fez com que eu bebesse um pouco além da conta
e, o que é bem pior, cerveja tão ruim e tão quente que, para descer,
obrigava à ingestão de qualquer coisa sólida. E as tais coisas sólidas
que eu enfiei na boca não eram exatamente saudáveis. O resultado não
poderia ser outro: meu fígado, já tão maltratado pelas quantidades
verdadeiramente industriais de álcoois vários – e nem sempre com a
devida chancela de um controle de qualidade – além de aborrecimentos
dignos de me fazer dividir uma cela com o Palocci num hospício dirigido
pelo Severino Cavalcante, literalmente abriu o bico.
E, como se tudo isso
não bastasse, comecei a sentir uma dor de cabeça acompanhada de uma
terrível coceira na testa, ao imaginar que, uma vez que eu tinha sido
capaz de deixar o sagrado ambiente do lar para ir caçar diversão durante
o Carnaval, nada impedia que Lurdinha fizesse o mesmo... E entre ela e
eu, convenhamos, Lurdinha tem muito mais predicados e possibilidades de
não ficar na mão. Melhor dizendo, ela tem muito mais
probabilidades de ficar na mão de alguém.
Tais pensamentos
tenebrosos agravaram-se ainda mais quando fui buscá-la no aeroporto e
ela disse que não conseguira aproveitar o carnaval de Salvador, ficara
no hotel o tempo inteiro, sem conseguir dormir. Era fácil comprovar a
veracidade de suas palavras, uma vez que ela estava mais branca do que
quando deixara São Paulo e as olheiras chegava-lhe até a metade da cara.
Talvez ela não tivesse saído do hotel por causa do excesso de gente nas
ruas – Lurdinha nunca fora amiga de aglomerações, até tinha me
surpreendido quando ela decidira ir curtir o Carnaval em Salvador
– e não tivesse conseguido dormir por causa do barulho – é mais do que
sabido que o Carnaval baiano está longe de poder ser chamado de
silencioso – mas nada conseguia afastar de minha mente a idéia de que
minha doce mulherzinha tinha passado nada menos que quatro dias trancada
no hotel e sem poder dormir simplesmente porque ela tinha encontrado uma
maneira muito mais divertida de curtição em companhia de algum
timbaleiro lustroso e musculoso que preferira tocar numa bela paulistana
a bater o couro morto de um tímbalo... Axé, meu Rei!
Mas, como tudo aquilo
que os olhos não vêem o coração, ainda que tendo sentido, raramente fica
remoendo, nos dias que se seguiram até a Semana Santa, as coisas foram
entrando nos eixos e a rotina doméstica foi retomada. Até mesmo passei a
achar graça quando Lurdinha me chamava de meu Rei...
Foi na quarta-feira,
antevéspera da Sexta-feira da Paixão, que as coisas azedaram.
No jantar de terça,
talvez por causa de uma terrível e altamente suspeita crise de nostalgia
da terra de Jorge Amado, Dorival Caymi, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e
tantos outros baianos que assombram o mundo, Lurdinha resolveu preparar
um vatapá. A desculpa dada para a aventura culinária foi que se tratava
de um ensaio para o almoço de sexta-feira, em substituição à já
tradicional – e deliciosa – bacalhoada que sempre fazia.
O diabo do vatapá
estava bom... Tão bom que eu abusei e mandei ver três prataços da
iguaria – devidamente acompanhada por um pirãozinho de arroz com coco e
incontáveis copos de cerveja – cada um deles digno da mesa de um
pedreiro.
Acordei na quarta-feira
com a impressão de estar com um caminhão estacionado dentro do meu
estômago e com o motorista dançado Minha Egüinha Pocotó em cima
da minha barriga.
– Vou leva-lo ao
médico, meu Rei – decidiu Lurdinha – Você não pode estar doente
na sexta-feira. Mamãe vem comer o vatapá e você não vai lhe fazer a
desfeita de estar passando mal!
Foi aí que senti a
segunda pontada. Desta vez, foi dor. Uma dor aguda, constritiva, que se
me irradiou por todo o peito, chegando até à alma. Principalmente à
alma.
A sogra viria! E,
certamente, voltaria à baila aquelas duas perguntas terríveis: Quando
é que vocês vão marcar o casamento? e Será possível que você não
percebe que não fica bem estarem vivendo juntos... assim, sem nenhum
papel, sem nenhuma garantia para a Lurdinha?
A tal da pontada,
porém, passou assim que eu me dei conta de que aquela indisposição
digestiva poderia se transformar numa excelente maneira de eu não vir a
ter, na própria Sexta-Feira Santa, uma terrível – e talvez fatal –
indisposição espiritual.
O negócio era
mostrar-me tão mal para o médico que ele achasse por bem me internar.
Assim, com essa idéia
na cabeça, deixei-me levar por Lurdinha para uma visita ao doutor. Minha
sugestão de irmos a um médico meu amigo foi rechaçada por ela de forma
inapelável:
– O Luís? Mas de jeito
nenhum! Jamais poderia permitir que aquele cachaceiro pusesse as mãos em
você, meu Rei!
E fomos ver, não um
médico, mas uma médica, uma certa doutora Simone, quem indicou foi uma
amiga de Lurdinha, com adjetivos como, fantástica, excepcional, genial,
entre outros que definiam a tal doutora como um gênio da medicina
moderna.
Minha consulta não pode
ser considerada um sucesso, mas isso você vai saber na próxima coluna.
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