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O Homem sedentário por Pedro Antonio

Originalmente criada para a Revista Essência Natural, era uma coluna mensal que, de forma bem descontraída, criticava a atual obsessão pela estética e pelo culto ao corpo.

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Janeiro   Fevereiro  Março/2005

 

Carnaval II a conta!  (Março)

O Carnaval, definitivamente, foi fatídico. Além de não ter conseguido um mínimo de diversão, arrumei um mal-estar dos diabos com um colega de trabalho que, já na quarta-feira depois do almoço, veio me falar, em surdina e tom de reprovação:

– Você devia ter me contado antes...

– Devia ter contado o quê? – indaguei, cheio de surpresa.

– Ora! Que você é um dos nossos!

– ...!

– Não faça essa cara de desentendido! Estamos só nos dois, aqui em sua sala... Não há perigo de alguém escutar.

– ...!

– Eu vi você pegando um táxi diante do Baile da Mariana.

Foi quando senti a primeira pontada no peito. Não posso afirmar que foi uma dor, mas pareceu-me naquele instante que alguém, ou alguma coisa, estava tentando furar-me mais ou menos na altura da metade do peito, e do lado esquerdo. Ao mesmo tempo, percebi que começava a tremer e a suar frio, aquele suor pegajoso que antecede uma crise de vômito depois de uma bebedeira homérica.

Controlando-me da melhor maneira que podia e sem notar que estava manifestando toda a minha carga de preconceito em relação à turma do GLS, quase gritei:

– Mas isso não quer dizer nada! Não é porque eu peguei um táxi na frente de um baile de bichas que eu sou um deles!

Baixando um pouco o tom de voz, acrescentei:

– Eu estava ali de passagem... Tinha ido visitar uma amiga ali perto...

– Tá bom! E o cabelo cheio de confete? Estava havendo um baile de carnaval na casa dessa sua amiga? – fez meu colega, sem esconder um tom ofendido em sua voz.

– S-sim... E-estava – gaguejei.

E, achando que tinha encontrado a saída para aquela situação, indaguei, em tom de desafio:

– Mas... E você? O que estava fazendo ali, para poder enxergar os confetes em meu cabelo?

O outro, já caminhando a passos duros para a porta de saída, falou:

– Eu sou gay... Já deixei isso claro quando lhe disse que você deveria ser um dos nossos, uma vez que foi ao Baile da Mariana.

Olhou por cima do ombro para mim, passou a mão sobre a testa afastando uma mecha de cabelos num gesto que ficaria muito bem na Cicarelli, e finalizou:

– Mas vejo que me enganei... Ou, então, você é que está tentando enganar a si mesmo, recusando-se a assumir a sua verdadeira sexualidade!

Não é preciso dizer que não nos falamos mais, desde aquele dia e, pela forma como alguns outros colegas passaram a me olhar, desconfio que ele tenha dado com a língua nos dentes  e que esses colegas também fazem parte do Time do Arco-Íris.

Porém, não foi apenas esse saldo negativo que o Carnaval me deixou. Minha maratona inútil em busca de uma vã diversão fez com que eu bebesse um pouco além da conta e, o que é bem pior, cerveja tão ruim e tão quente que, para descer, obrigava à ingestão de qualquer coisa sólida. E as tais coisas sólidas que eu enfiei na boca não eram exatamente saudáveis. O resultado não poderia ser outro: meu fígado, já tão maltratado pelas quantidades verdadeiramente industriais de álcoois vários – e nem sempre com a devida chancela de um controle de qualidade – além de aborrecimentos dignos de me fazer dividir uma cela com o Palocci num hospício dirigido pelo Severino Cavalcante, literalmente abriu o bico.

E, como se tudo isso não bastasse, comecei a sentir uma dor de cabeça acompanhada de uma terrível coceira na testa, ao imaginar que, uma vez que eu tinha sido capaz de deixar o sagrado ambiente do lar para ir caçar diversão durante o Carnaval, nada impedia que Lurdinha fizesse o mesmo... E entre ela e eu, convenhamos, Lurdinha tem muito mais predicados e possibilidades de não ficar na mão. Melhor dizendo, ela tem muito mais probabilidades de ficar na mão de alguém.

Tais pensamentos tenebrosos agravaram-se ainda mais quando fui buscá-la no aeroporto e ela disse que não conseguira aproveitar o carnaval de Salvador, ficara no hotel o tempo inteiro, sem conseguir dormir. Era fácil comprovar a veracidade de suas palavras, uma vez que ela estava mais branca do que quando deixara São Paulo e as olheiras chegava-lhe até a metade da cara. Talvez ela não tivesse saído do hotel por causa do excesso de gente nas ruas – Lurdinha nunca fora amiga de aglomerações, até tinha me surpreendido quando ela decidira ir curtir o Carnaval em Salvador – e não tivesse conseguido dormir por causa do barulho – é mais do que sabido que o Carnaval baiano está longe de poder ser chamado de silencioso – mas nada conseguia afastar de minha mente a idéia de que minha doce mulherzinha tinha passado nada menos que quatro dias trancada no hotel e sem poder dormir simplesmente porque ela tinha encontrado uma maneira muito mais divertida de curtição em companhia de algum timbaleiro lustroso e musculoso que preferira tocar numa bela paulistana a bater o couro morto de um tímbalo... Axé, meu Rei!

Mas, como tudo aquilo que os olhos não vêem o coração, ainda que tendo sentido, raramente fica remoendo, nos dias que se seguiram até a Semana Santa, as coisas foram entrando nos eixos e a rotina doméstica foi retomada. Até mesmo passei a achar graça quando Lurdinha me chamava de meu Rei...

Foi na quarta-feira, antevéspera da Sexta-feira da Paixão, que as coisas azedaram.

No jantar de terça, talvez por causa de uma terrível e altamente suspeita crise de nostalgia da terra de Jorge Amado, Dorival Caymi, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e tantos outros baianos que assombram o mundo, Lurdinha resolveu preparar um vatapá. A desculpa dada para a aventura culinária foi que se tratava de um ensaio para o almoço de sexta-feira, em substituição à já tradicional – e deliciosa – bacalhoada que sempre fazia.

O diabo do vatapá estava bom... Tão bom que eu abusei e mandei ver três prataços da iguaria – devidamente acompanhada por um pirãozinho de arroz com coco e incontáveis copos de cerveja – cada um deles digno da mesa de um pedreiro.

Acordei na quarta-feira com a impressão de estar com um caminhão estacionado dentro do meu estômago e com o motorista dançado Minha Egüinha Pocotó em cima da minha barriga.

– Vou leva-lo ao médico, meu Rei – decidiu Lurdinha – Você não pode estar doente na sexta-feira. Mamãe vem comer o vatapá e você não vai lhe fazer a desfeita de estar passando mal!

Foi aí que senti a segunda pontada. Desta vez, foi dor. Uma dor aguda, constritiva, que se me irradiou por todo o peito, chegando até à alma. Principalmente à alma.

A sogra viria! E, certamente, voltaria à baila aquelas duas perguntas terríveis: Quando é que vocês vão marcar o casamento? e Será possível que você não percebe que não fica bem estarem vivendo juntos... assim, sem nenhum papel, sem nenhuma garantia para a Lurdinha?

A tal da pontada, porém, passou assim que eu me dei conta de que aquela indisposição digestiva poderia se transformar numa excelente maneira de eu não vir a ter, na própria Sexta-Feira Santa, uma terrível – e talvez fatal – indisposição espiritual.

O negócio era mostrar-me tão mal para o médico que ele achasse por bem me internar.

Assim, com essa idéia na cabeça, deixei-me levar por Lurdinha para uma visita ao doutor. Minha sugestão de irmos a um médico meu amigo foi rechaçada por ela de forma inapelável:

– O Luís? Mas de jeito nenhum! Jamais poderia permitir que aquele cachaceiro pusesse as mãos em você, meu Rei!

E fomos ver, não um médico, mas uma médica, uma certa doutora Simone, quem indicou foi uma amiga de Lurdinha, com adjetivos como, fantástica, excepcional, genial, entre outros que definiam a tal doutora como um gênio da medicina moderna.

Minha consulta não pode ser considerada um sucesso, mas isso você vai saber na próxima coluna.