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O Homem sedentário por Pedro Antonio

Originalmente criada para a Revista Essência Natural, era uma coluna mensal que, de forma bem descontraída, criticava a atual obsessão pela estética e pelo culto ao corpo.

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Bangalô (Abril)

...E então fomos ver a tal da Médica, Dra. Simone, que nos recebeu como se fôssemos velhos amigos, deu-me um beijinho em cada lado do rosto e deixou-me inebriado com o seu perfume.

Aliás, não foi apenas o perfume que me fez viajar. Simone era o tipo de médica que se pode qualificar como médica catalítica, ou seja, cura pela simples presença, sem interferir participativamente do processo terapêutico. Médica-catalisadora. Isso. Explico. O catalisador atua na reação química pela presença entre as substâncias a reagir. Ele mesmo entra e sai do processo sem sofrer nenhuma modificação. Simone curava pela simples presença. Qualquer doente, apresentando a patologia que fosse, sararia no momento em que ela ficasse à sua frente. Linda. Loira, esbelta, com o rosto perfeito, os olhos claros que pareciam eternamente sorrir e os lábios carnudos, verdadeiros convites a beijos.

– Ele tem de estar bom na sexta-feira, Simone – explicou Lurdinha, antes mesmo que eu fizesse qualquer queixa à médica – Mamãe vem passar a Semana Santa conosco e ele não pode estar doente!

Simone olhou para mim e pude perceber um brilho de pena e comiseração em sua fisionomia.

– Entendo... – murmurou ela com uma voz quente e macia – Sei como são essas coisas.

Fez sinal para que eu deitasse na mesa de exames e, palpando minha barriga, perguntou:

– O que está sentindo?

Tive de pensar e de me acautelar para responder. Se fosse dizer a verdade, contar-lhe o que eu estava sentindo, certamente Lurdinha sairia correndo do consultório, não sem antes ter quebrado em minha cabeça uma bonita e não menos pesada estatueta de jade que estava sobre a mesa, representando um paciente terminal descansando – ou morrendo – com o tronco apoiado nos joelhos de um médico.

Fui obrigado a limitar minhas queixas a uma dor imaginária, pois naquele instante já não estava sentindo mais nada, muito pelo contrário, tinha certeza de estar em forma o bastante para iniciar uma outra maratona, desta feita não em busca de diversão, mas sim de prazer.

Ela ainda palpou-acariciou minha barriga por mais alguns instantes, sorriu para mim – de costas para Lurdinha, evidentemente – ao perceber uma certa e específica reação de minha parte – ou de minhas partes – ao roçar suave de  seus dedos em minha pele, e disse:

– Isso é estafa...

Voltando para sua escrivaninha, ela falou:

– Seu marido...

– Ainda não é meu marido, Simone... Vivemos juntos, mas ainda não casamos – explicou Lurdinha, lançando-me um olhar quase assassino.

Simone prosseguiu, no mesmo tom de antes, como se nem sequer tivesse sido interrompida:

– Ele precisa descansar. No mínimo uma semana de repouso. Sem aborrecimentos, sem nada que o possa preocupar. E, como vocês vão ter visitas durante a Semana-Santa, acho que ele deve ir para uma praia, ou para as montanhas... Para qualquer lugar onde possa realmente se desligar de tudo e de todos.

Como Lurdinha fizesse uma expressão de desespero, Simone deu o golpe de misericórdia:

– É isso, ou enfartar antes do fim-de-semana.

– Não quero enfartar! – exclamei, apavorado.

– Mas... E Mamãe? – choramingou Lurdinha – O que vou dizer a ela?

– Você vai dizer que eu precisei repousar para que não enfartasse e, assim, você ficasse viúva antes mesmo de casar.

Voltando-me para Simone, cujos olhos, naquele instante, tinham um brilho de excitante malícia, falei:

– Hoje mesmo vou para Maresias. E, se me permitir, vou ligar daqui mesmo para uma pousada em que estivemos, em setembro passado.

Sem esperar que Simone ou Lurdinha dissessem qualquer coisa, saquei meu celular, busquei na agenda o número da pousada e fiz a ligação.

– Alô! É da Pousada Imperial?

Dei meu nome e, em seguida, falei:

– Preciso de um chalé para hoje à noite até segunda-feira, no mínimo.

– Como não tem chalé? Ah Bangalô...É assim que vocês chamam agora? Mas eu achei que bangalô fosse outra coisa? ....mas deixa pra lá. Quero um assim mesmo..

Ouvi a resposta afirmativa da recepcionista e disse:

– Então está certo. Chegarei aí por volta de dez horas da noite. Qual é mesmo o número do chalé? Quer dizer Bangalô. Trinta e seis? Ótimo! Estarei aí, então e irei direto para o Changalô. bangalô ´porra.

A Dra Simone já estava me repreendendo o nervoso desnecessário. Me acalmei e continuei a ouvir a recepcionista me dando explicações.

– Ok! Depois de tomar um banho, passarei na portaria, está certo?

Agradeci, desliguei e, voltando-me para Lurdinha, consolei-a:

– Não fique triste, meu amor... E diga para sua mãe que assim que eu estiver melhor, iremos à casa dela para marcar o dia do casamento...

Palavra mágica! Casamento! Lurdinha esqueceu a mágoa, subitamente deixou de me chamar de meu Rei e ajudou-me a arrumar a mala para a viagem.

Cheguei ao Bangalô alguns minutos antes das nove horas.

Através das frestas das venezianas, vi que tinham deixado as luzes acesas. Ouvi um som que vinha lá de dentro. Era uma música suave, dos anos sessenta, bem do meu estilo.

Abri a porta e entrei.

– Fez boa viagem, benzinho? – perguntou uma voz que eu não conhecia.

Quando eu já ia saindo do quarto que haviam me dado, percebi um vulto atrás de mim, era um garotão de uns 25 anos, alto e muito forte. Pela forma que ele me olhou percebi que ele devia ser namorado, marido ou até amante da dona que estava me chamando de benzinho.

Sai correndo antes de dar tempo dele me partir a cara ao meio. Fui a recepcionista e pedi outro quarto.

– Infelizmente não temos outro senhor, foi um erro de cadastro,

– Como não tem outro quarto.

–  Não tendo. Sinto muito.

Meu peito começou a doer e achei melhor parar de discutir e simplesmente procurar outro hotel, pousada, bangalô ou seja lá como chamam essa porra.

Continua