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...E então fomos ver a
tal da Médica, Dra. Simone, que nos recebeu como se fôssemos velhos
amigos, deu-me um beijinho em cada lado do rosto e deixou-me inebriado
com o seu perfume.
Aliás, não foi apenas o
perfume que me fez viajar. Simone era o tipo de médica que se
pode qualificar como médica catalítica, ou seja, cura pela
simples presença, sem interferir participativamente do processo
terapêutico. Médica-catalisadora. Isso. Explico. O catalisador atua na
reação química pela presença entre as substâncias a reagir. Ele mesmo
entra e sai do processo sem sofrer nenhuma modificação. Simone curava
pela simples presença. Qualquer doente, apresentando a patologia que
fosse, sararia no momento em que ela ficasse à sua frente. Linda. Loira,
esbelta, com o rosto perfeito, os olhos claros que pareciam eternamente
sorrir e os lábios carnudos, verdadeiros convites a beijos.
– Ele tem de estar bom
na sexta-feira, Simone – explicou Lurdinha, antes mesmo que eu fizesse
qualquer queixa à médica – Mamãe vem passar a Semana Santa conosco e ele
não pode estar doente!
Simone olhou para mim e
pude perceber um brilho de pena e comiseração em sua fisionomia.
– Entendo... – murmurou
ela com uma voz quente e macia – Sei como são essas coisas.
Fez sinal para que eu
deitasse na mesa de exames e, palpando minha barriga, perguntou:
– O que está sentindo?
Tive de pensar e de me
acautelar para responder. Se fosse dizer a verdade, contar-lhe o que eu
estava sentindo, certamente Lurdinha sairia correndo do consultório, não
sem antes ter quebrado em minha cabeça uma bonita e não menos pesada
estatueta de jade que estava sobre a mesa, representando um paciente
terminal descansando – ou morrendo – com o tronco apoiado nos joelhos de
um médico.
Fui obrigado a limitar
minhas queixas a uma dor imaginária, pois naquele instante já não estava
sentindo mais nada, muito pelo contrário, tinha certeza de estar em
forma o bastante para iniciar uma outra maratona, desta feita não em
busca de diversão, mas sim de prazer.
Ela ainda
palpou-acariciou minha barriga por mais alguns instantes, sorriu para
mim – de costas para Lurdinha, evidentemente – ao perceber uma certa e
específica reação de minha parte – ou de minhas partes – ao roçar suave
de seus dedos em minha pele, e disse:
– Isso é estafa...
Voltando para sua
escrivaninha, ela falou:
– Seu marido...
– Ainda não é meu
marido, Simone... Vivemos juntos, mas ainda não casamos – explicou
Lurdinha, lançando-me um olhar quase assassino.
Simone prosseguiu, no
mesmo tom de antes, como se nem sequer tivesse sido interrompida:
– Ele precisa
descansar. No mínimo uma semana de repouso. Sem aborrecimentos, sem nada
que o possa preocupar. E, como vocês vão ter visitas durante a
Semana-Santa, acho que ele deve ir para uma praia, ou para as
montanhas... Para qualquer lugar onde possa realmente se desligar de
tudo e de todos.
Como Lurdinha fizesse
uma expressão de desespero, Simone deu o golpe de misericórdia:
– É isso, ou enfartar
antes do fim-de-semana.
– Não quero enfartar! –
exclamei, apavorado.
– Mas... E Mamãe? –
choramingou Lurdinha – O que vou dizer a ela?
– Você vai dizer que eu
precisei repousar para que não enfartasse e, assim, você ficasse viúva
antes mesmo de casar.
Voltando-me para
Simone, cujos olhos, naquele instante, tinham um brilho de excitante
malícia, falei:
– Hoje mesmo vou para
Maresias. E, se me permitir, vou ligar daqui mesmo para uma pousada em
que estivemos, em setembro passado.
Sem esperar que Simone
ou Lurdinha dissessem qualquer coisa, saquei meu celular, busquei na
agenda o número da pousada e fiz a ligação.
– Alô! É da Pousada
Imperial?
Dei meu nome e, em
seguida, falei:
– Preciso de um chalé
para hoje à noite até segunda-feira, no mínimo.
– Como não tem chalé?
Ah Bangalô...É assim que vocês chamam agora? Mas eu achei que bangalô
fosse outra coisa? ....mas deixa pra lá. Quero um assim mesmo..
Ouvi a resposta
afirmativa da recepcionista e disse:
– Então está certo.
Chegarei aí por volta de dez horas da noite. Qual é mesmo o número do
chalé? Quer dizer Bangalô. Trinta e seis? Ótimo! Estarei aí, então e
irei direto para o Changalô. bangalô ´porra.
A Dra Simone já estava
me repreendendo o nervoso desnecessário. Me acalmei e continuei a ouvir
a recepcionista me dando explicações.
– Ok! Depois de tomar
um banho, passarei na portaria, está certo?
Agradeci, desliguei e,
voltando-me para Lurdinha, consolei-a:
– Não fique triste, meu
amor... E diga para sua mãe que assim que eu estiver melhor, iremos à
casa dela para marcar o dia do casamento...
Palavra mágica!
Casamento! Lurdinha esqueceu a mágoa, subitamente deixou de me chamar de
meu Rei e ajudou-me a arrumar a mala para a viagem.
Cheguei ao Bangalô
alguns minutos antes das nove horas.
Através das frestas das
venezianas, vi que tinham deixado as luzes acesas. Ouvi um som que vinha
lá de dentro. Era uma música suave, dos anos sessenta, bem do meu
estilo.
Abri a porta e entrei.
– Fez boa viagem,
benzinho? – perguntou uma voz que eu não conhecia.
Quando eu já ia saindo
do quarto que haviam me dado, percebi um vulto atrás de mim, era um
garotão de uns 25 anos, alto e muito forte. Pela forma que ele me olhou
percebi que ele devia ser namorado, marido ou até amante da dona que
estava me chamando de benzinho.
Sai correndo antes de
dar tempo dele me partir a cara ao meio. Fui a recepcionista e pedi
outro quarto.
– Infelizmente não
temos outro senhor, foi um erro de cadastro,
– Como não tem outro
quarto.
– Não tendo.
Sinto muito.
Meu peito começou a
doer e achei melhor parar de discutir e simplesmente procurar outro
hotel, pousada, bangalô ou seja lá como chamam essa porra.
Continua |