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É comum ouvir comentários do tipo: “A juventude de hoje
está perdida”, “...antes éramos mais engajados, mais esforçados, etc.”.
Esse tipo de opinião que já se tornou um lugar comum entre os mais
velhos mostra uma grande incompreensão do jovem e uma miopia diante da
realidade. É um tema complexo, não pretendo esgotá-lo neste espaço, mas
sim levantar algumas questões relevantes para uma reflexão mais
criteriosa de cada um.
Antes era mais fácil definir o inimigo. Não tenham dúvidas de que, no
caso de um golpe militar, os jovens lutariam da mesma forma que lutaram
nos negros anos da ditadura no Brasil. Talvez com menos ingenuidade e
mais eficiência. Hoje o inimigo não é real, não tem um nome, é mais
sutil e multifacetado.
O jovem tem de escolher uma bandeira, uma posição. Ele pode lutar pelo
meio ambiente, mas contra quem? Pode lutar pelo bem estar social, tem
alguém que é contra isso? Pode lutar contra o racismo, mas na sociedade
essa é uma luta ganha, essa luta tem de ser travada one-one (um a um) no
indivíduo. Pode lutar contra o sistema, mas que parte do sistema? Quem
representa esse sistema? Pode, e alguns lutam por incrível que pareça,
contra a globalização, mas eu não pensei que a globalização fosse
ajudar? Ou será que não? Pode lutar contra a fome, mas a fome tem um
rosto? Não dá para pegar uma arma e sair lutando contra a fome.
A luta pela paz é a única que ainda tem um apelo ideológico, ingênuo mas
válido, pois a guerra ainda tem uma cara, e a mais famosa é Bush e os
EUA, muito mais por uma falha de relações públicas e diplomáticas do que
por uma política de opressão. No Brasil a luta pela paz está restrita à
campanha do desarmamento, que terá plebiscito em breve. No entanto a
discussão é pequena diante da complexidade e da importância do tema.
Politicamente são imperceptíveis as diferenças ideológicas entre os
partidos políticos brasileiros todos, de direita ou de esquerda que têm
um discurso muito próximo, as ações dizem muito mais sobre eles, mas
dentro de cada um existem diferentes facções e ações, a ala radical do
PT se aproxima do PCdoB, já o lado mais light, parece-se muito mais com
um partido de centro direita, o PSDB, que muitas vezes, está à esquerda
do PT que é um partido legitimamente de esquerda. Escolher um partido
pode ser lutar pela paz. Bush aparece como o grande inimigo.
Existia um pensamento coletivo, pensava-se na Sociedade como um todo, o
que se mostrou impossível, cada indivíduo tem ideais e aspirações
diferentes, hoje o jovem tem que pensar em tribos, cada tribo pensa
diferente, e o bem estar social tem um significado diferente para cada
uma delas. O que é bom para uma não o é para outra. Assim a “luta” é
dispersa e imperceptível para quem não participa dessa tribo.
Essa “luta” atual é muito mais complexa e individual. O jovem não é
colocado automaticamente numa posição ideológica, ele tem de escolher
essa posição. Ele tem de achar um espaço para si e para sua posição. O
Existencialismo de Sartre antecipou essa tendência “O inferno é o
outro”. O maior problema do indivíduo hoje é o seu próprio ser e
existir, e não uma sociedade opressora, ou uma ditadura, ou a censura.
Com a liberdade de expressão a voz contrária e revolucionária perdeu
potência, perdeu o foco e o poder. Todos podem dizer o que querem, nos
mais variados e segmentados veículos, a Internet mostra isso, uma
pesquisa rápida nos Blog´s de hoje evidencia que tem muita gente
engajada e ideologicamente preocupada, mas poucos ouvem e, nos que
ouvem, a mensagem não provoca nenhuma ação concreta, pois ouvem muita
coisa. O famoso excesso de informação, mas isso já é uma outra história
para um outro Papo Cabeça.
Enfim, hoje a revolução deixou de ser uma revolução social para ser uma
revolução individual. Comece já a sua. |