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Estou revoltado com a classe
artística do país e do mundo. Semana passada acusei os artistas
nacionais de se omitirem sobre o abuso do governo na cobrança de
impostos, numa espécie de acordo onde o artista não reclama e o governo
não cobra deles os impostos tirânicos que cobra da maioria da população.
Nesta semana, tive acesso a
uma reportagem da BBC Brasil divulgando que o McDonald´s vai pagar, aos
rappers famosos, US$ 5 (cerca de R$14,00) cada vez que uma música que
contenha a palavra “Big Mac” tocar nas rádios americanas. Isso acontece
num momento em que a rede de lanchonetes e outras do mesmo segmento
estão com sua imagem em baixa, acusadas de serem uma das responsáveis
pela onda de obesidade que assombra a América.
Essa estratégia de marketing
não é nova e já foi usada por grandes marcas como Bentley, Porche, Gucci
e Dom Perignon. Artistas como Jay-Z, 50 Cent e Snoop Dogg compraram a
idéia e saíram ganhando.
No exterior o que
impressiona é a falta de pudor e principalmente o fato de que marcas
preocupadas com uma imagem de “politicamente corretas” estejam se
associando a um grupo de artistas que, até pouco tempo atrás, eram
marginalizados. Afinal, de politicamente correto, um rapper não tem
nada. As letras falam de sexo, drogas, violência, racismo, ambição e
parece que agora também vão falar de “Big Mac”. A grande jogada é
exatamente essa, artistas como eles têm forte apelo com o público mais
jovem, teoricamente mais fácil de ser conquistado e muito mais
lucrativo, pois tem uma vida inteira para consumir os produtos de sua
preferência.
No Brasil a coisa é mais
sutil, mas é sintomático o fato de que a grande maioria das casas de
Show não tem mais nome próprio, o nome é formado pelo nome do
patrocinador e a palavra Hall, só em São Paulo, por exemplo, temos:
Credicard Hall, DirecTv Music Hall, Claro Hall, TH Hall, City Hall,
entre muitas outras. Quando os patrocinadores mudam, o nome muda também.
Essa tendência tem poucos anos e já está difícil lembrar em qual casa
foi aquele show inesquecível.
Os festivais de música também já foram tomados pelo mundo corporativo.
Skol Beats, Nokia Trends, Free Jazz Festival (que agora virou Chivas
Jazz Festival), Vivo Open Air, Kaiser Rock, Coca Cola Vibe, entre outros
tantos. Até o Rock in Rio vai mudar na próxima edição.
Poucos artistas se recusam a
participar dessa salada de arte com publicidade, mas logo vão perceber
que, assim como a imagem das empresas é beneficiada pela dos artistas, a
imagem dos artistas vai ser prejudicada pela das empresas.
O Governo, só para variar um
pouquinho, também tem sua parcela de culpa, com uma política de leis de
incentivo fiscal que permite ao artista bancar todo o investimento da
obra com leis (federais, estaduais e/ou municipais) oferecendo isenção
(quase 100%) para empresas que patrocinam esses eventos culturais.
Ninguém se arrisca a começar um projeto sem antes levantar capital com
patrocinadores, afinal a cultura nesse país não vive de bilheteria, pois
o preço é muito alto para os padrões da maioria da população, nem das
vendas de discos por causa da pirataria, ranking em que somos
vice-campeões, perdendo só para a China, nem de direitos autorais, que
são praticamente ignorados em todo o território nacional.
O governo está bancando as
campanhas de marketing dessas empresas! O raciocínio pode parecer meio
maluco, mas é verdade, o dinheiro que essas empresas utilizam para
bancar esses eventos sai do bolso do contribuinte, pois elas descontam
integralmente de impostos devidos. Sem contar a oportunidade de desvio,
superfaturamento para um caixa 2 que essas operações permitem, O filme
“Chatô” está ai para provar minha tese.
A Classe artística, no
Brasil e no mundo (salvo algumas poucas exceções), precisa tomar
consciência disso, parar de olhar para o próprio umbigo e deixar de ser
capacho do governo e das verbas de marketing de empresas que não estão
nem um pouco preocupadas com a cultura. |