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PAPO CABEÇA

por Cacá Fernandes

Coluna Mensal num pequeno jornal de Arujá, que circula nos condomínios da Região. Podendo discutir qualquer tipo de assunto, o lema é liberdade de expressão e sempre tive liberdade para escrever o que me viesse a cabeça.

ABRIL

 

Big Mac e Rap. Indigestão a vista!

Estou revoltado com a classe artística do país e do mundo. Semana passada acusei os artistas nacionais de se omitirem sobre o abuso do governo na cobrança de impostos, numa espécie de acordo onde o artista não reclama e o governo não cobra deles os impostos tirânicos que cobra da maioria da população.

Nesta semana, tive acesso a uma reportagem da BBC Brasil divulgando que o McDonald´s vai pagar, aos rappers famosos, US$ 5 (cerca de R$14,00) cada vez que uma música que contenha a palavra “Big Mac” tocar nas rádios americanas. Isso acontece num momento em que a rede de lanchonetes e outras do mesmo segmento estão com sua imagem em baixa, acusadas de serem uma das responsáveis pela onda de obesidade que assombra a América.

Essa estratégia de marketing não é nova e já foi usada por grandes marcas como Bentley, Porche, Gucci e Dom Perignon. Artistas como Jay-Z, 50 Cent e Snoop Dogg compraram a idéia e saíram ganhando.

No exterior o que impressiona é a falta de pudor e principalmente o fato de que marcas preocupadas com uma imagem de “politicamente corretas” estejam se associando a um grupo de artistas que, até pouco tempo atrás, eram marginalizados. Afinal, de politicamente correto, um rapper não tem nada. As letras falam de sexo, drogas, violência, racismo, ambição e parece que agora também vão falar de “Big Mac”. A grande jogada é exatamente essa, artistas como eles têm forte apelo com o público mais jovem, teoricamente mais fácil de ser conquistado e muito mais lucrativo, pois tem uma vida inteira para consumir os produtos de sua preferência.

No Brasil a coisa é mais sutil, mas é sintomático o fato de que a grande maioria das casas de Show não tem mais nome próprio, o nome é formado pelo nome do patrocinador e a palavra Hall, só em São Paulo, por exemplo, temos: Credicard Hall, DirecTv Music Hall, Claro Hall, TH Hall, City Hall, entre muitas outras. Quando os patrocinadores mudam, o nome muda também. Essa tendência tem poucos anos e já está difícil lembrar em qual casa foi aquele show inesquecível.
Os festivais de música também já foram tomados pelo mundo corporativo. Skol Beats, Nokia Trends, Free Jazz Festival (que agora virou Chivas Jazz Festival), Vivo Open Air, Kaiser Rock, Coca Cola Vibe, entre outros tantos. Até o Rock in Rio vai mudar na próxima edição.

Poucos artistas se recusam a participar dessa salada de arte com publicidade, mas logo vão perceber que, assim como a imagem das empresas é beneficiada pela dos artistas, a imagem dos artistas vai ser prejudicada pela das empresas.

O Governo, só para variar um pouquinho, também tem sua parcela de culpa, com uma política de leis de incentivo fiscal que permite ao artista bancar todo o investimento da obra com leis (federais, estaduais e/ou municipais) oferecendo isenção (quase 100%) para empresas que patrocinam esses eventos culturais. Ninguém se arrisca a começar um projeto sem antes levantar capital com patrocinadores, afinal a cultura nesse país não vive de bilheteria, pois o preço é muito alto para os padrões da maioria da população, nem das vendas de discos por causa da pirataria, ranking em que somos vice-campeões, perdendo só para a China, nem de direitos autorais, que são praticamente ignorados em todo o território nacional.

O governo está bancando as campanhas de marketing dessas empresas! O raciocínio pode parecer meio maluco, mas é verdade, o dinheiro que essas empresas utilizam para bancar esses eventos sai do bolso do contribuinte, pois elas descontam integralmente de impostos devidos. Sem contar a oportunidade de desvio, superfaturamento para um caixa 2 que essas operações permitem, O filme “Chatô” está ai para provar minha tese.

A Classe artística, no Brasil e no mundo (salvo algumas poucas exceções), precisa tomar consciência disso, parar de olhar para o próprio umbigo e deixar de ser capacho do governo e das verbas de marketing de empresas que não estão nem um pouco preocupadas com a cultura.

 
Livros

A tapas e pontapés

Diogo Mainardi

Editora Record (208 Páginas - R$ 25,00 - 2004).

Neste livro, Diogo, roteirista do filme indicado acima e um dos maiores críticos da sociedade brasileira e seus governantes, reúne algumas das melhores crônicas feitas para sua coluna semanal na revista Veja, retrabalhadas para a publicação num grande lançamento da Record. Do governo Lula às favelas cariocas, passando pelos principais artistas e intelectuais do país, nada escapa da fina ironia do autor.

   
Filmes

Mater Dei , de Vinicius e Diogo Mainardi. (Brasil 2001). Único filme brasileiro dos últimos tempos que não se utilizou de nenhuma isenção fiscal, foi bancado pelos próprios produtores e conta a história de Vini e Diogo, que são dois irmãos querendo fazer um filme. Vini é cineasta e Diogo é jornalista, mas eles têm um grande problema: a falta de financiamento. Passam a buscar junto a empresários a verba necessária para um novo filme, mesmo que signifique passar notas frias ou se envolver em corrupção. Conhecem um construtor que está envolvido em uma guerra velada com um juiz numa licitação pública. O juiz recebeu propina para que a empresa do construtor vencesse a disputa, o que não aconteceu e ainda ficou com o dinheiro. É metalingüístico e realista ao que acontece no cinema e no Brasil.

 
 
Música

Encore,

EMINEM

O maior nome do rap mundial da década, o rapper branco Eminem lança seu novo álbum, depois dos bem-sucedidos "The Eminem Show", que vendeu 19 milhões em todo o mundo e de "8 Mile", seu filme, cuja trilha sonora já vendeu mais de 10 milhões de unidades e conquistou o Oscar de Melhor canção no ano passado. Um dos prováveis rappers que não vai fazer propaganda de “Big Mac”.

   

The Massacre,

50 Cent

É o grande lançamento de 2005 do rapper 50 Cent, que conta com a produção de Eminem e Dr. Dre. O álbum já bateu recordes de vendas: em apenas quatro dias, foram mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos, a sexta melhor performance da história. É bom, mas se pagar ele faz propaganda até de arma.

 

N Ã O      P E R C A     S E U    T E M P O

Indo a uma noite Black de qualquer casa noturna de SP. É deprimente. Um monte de brancos achando que são negros.

   

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