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PAPO CABEÇA
por Cacá Fernandes
Coluna Mensal num pequeno jornal
de Arujá, que circula nos condomínios da Região. Podendo discutir
qualquer tipo de assunto, o lema é liberdade de expressão e sempre tive liberdade para escrever o que me viesse a cabeça.
SETEMBRO - 2004
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Clássicos de roupa
nova! |
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Se você acha que eu vou falar de moda,
pode parar de ler aqui mesmo. Vim falar de literatura e como alguns
artistas vem tentando reproduzir, adaptar ou atualizar a linguagem dos
grandes clássicos.
Essa prática é antiga e polêmica. O Problema não está nas reproduções ou
interpretações e sim nas tentativas de atualizar uma linguagem que é
clássica. É quando um grande clássico torna-se banal e na maioria das
vezes dispensável.
Não seria mais fácil ajudar e incentivar o contato das novas gerações
com os clássicos, ao invés de tentar atualizar essas obras?
O atualizar na maioria das vezes significa simplificar ou ainda
empobrecer, podemos perceber essa falha, principalmente, em três
fatores: Primeiro na tentativa de passar a história para a sociedade
atual que é muito mais complexa, cheia de paradoxos e padrões
globalizados, muitas vezes deturpados. Depois falha ao não perceber o
total despreparo intelectual do interlocutor de hoje, que tem formação
precária e nenhum incentivo para acompanhar um grande clássico.
Finalmente, e provavelmente, a mais grave das falhas, se encontra na
total falta de talento literário e artístico do autor, ou podemos chamar
de atualizador de textos? O cinema também vem utilizando os textos clássicos, a ultima aberração
veio com “Eu Robô” (I Robot, EUA 2004) com o astro de filmes de ação
Will Smith. O filme é baseado num dos contos do Livro de mesmo nome de
Isaac Asimov, celebre autor de ficção cientifica do século passado, que
já se tornou clássico. O Filme gasta um caminhão de dinheiro, mas peca
no sentimentalismo e deturpa a história do livro. Como entretenimento
até que funciona, mas não foge a regra holiwoodiana de simplificar e
explicar tudo no final. No Brasil, Dostoievski parece ser o cara da moda. Filmes, peças de
teatro e até um livro estão sendo lançados (como você pode perceber nas
indicações ao lado desta coluna), baseados na obra prima do autor, Crime
e Castigo (1866).
Isso acontece porque o texto sombrio do russo, se passa numa grande
metrópole, dando a falsa impressão de que é facil transferir toda a ação
para qualquer grande metrópole de hoje, sem perder o peso do texto. O
erro começa nessa constatação, pois o fator psicológico de Raskólnikov,
personagem principal da história, um estudante de direito que, sem
dinheiro, resolve provar na prática sua teoria de que no mundo existem
apenas dois tipos de pessoas, os extraordinários e os ordinários, e como
parte do primeiro time resolve livrar o mundo do segundo time, é o
grande atrativo do texto e seu principal diferencial. Trazer esses
conflitos psicológicos para os dias atuais, para um personagem
adolescente de hoje, se torna o principal desafio para as novas versões. Vale a pena conferir essas novas tentativas de adaptação, afinal vale
mais uma versão medíocre de um grande texto do que a versão medíocre de
um texto medíocre. |
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| Livros
Crime e Castigo, Fiodor Dostoievisk (Editora 34, 561 Páginas - R$ 53,00). Obra prima de
um dos maiores escritores russos, conta a história de Raskólnikov, um
jovem assassino que após deixar o curso de direito por falta de dinheiro
comete seu primeiro crime e anda pelas ruas de São Petesburgo, já uma
grande metrópole, tentando descobrir motivos e argumentos psicológicos
para seus atos. Um texto sombrio e atual. Traduzido direto do Russo essa
nova edição vale uma releitura. |
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| Livro Zero,
Alexandre Plosk (Editora Planeta, 215 Páginas - R$29,90).Trata-se de uma
espécie de apropriação de Crime e Castigo, de Dostoievski. Partindo do
crime de Raskólnikov, o personagem de Plosk,é o real assassino. Sem dó,
coloca-o na cadeia. Condenado a 25 anos de prisão aproveita o tempo na
prisão para ler os clássicos da literatura, fontes de inspiração para
escrever sua própria obra. Ao longo da história, surgem todos os
personagens da obra-prima russa. Aparecem disfarçados, revirados - mas
com os nomes originais. No fim, de maneira surpreendente, as duas obras
convergem. |
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| Eu Robô, Isaac Asimov (Ediouro, 318 Páginas - R$ 30,00). Histórias que resumem a
evolução da robótica. A narrativa engenhosa conduz o leitor com um
didatismo disfarçado, nem nos damos conta da lição de história da
robótica que aprendemos. Entre a babá da primeira história e a Máquina
que controla toda a Terra, na última, há ainda espaço para robôs que
enlouquecem, que fazem piadas, que lêem pensamentos e até robôs
orgulhosos de serem mais espertos do que os seres humanos. |
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| Cinema |
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Nina de Heitor Dahlia (Outubro nos cinemas) Raskólnikov é mulher (interpretada pela
atriz paranaense Guta Stresser) e vive no inferno de uma grande cidade e
sem dinheiro para pagar o aluguel segue o mesmo caminho que o personagem
do clássico literário. Usando uma linguagem pop, misturando quadrinhos e
animação, numa tentativa de atualizar a linguagem do clássico. O roteiro
é de Maçal de Aquino. |
| Romeu e Julieta
de Baz Luhrmann (Eua - 1998) O texto de William Shakeaspeare é
transportado para a atualidade e agora a ação se passa em Verona Beach,
na Flórida. Leonardo de Caprio e Claire Danes fazem o par romântico
nessa versão pop do clássico. Sucesso entre as adolescentes, com cores
saturadas e trilha sonora inspirada Luhrmann fica bem acima da média das
adaptações / atualizações dos clássicos. |
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| Teatro
Crime e Castigo do grupo Teatroendoscopia,
com direção de Antonio Araujo e Lucienne Guedes e textos do autor Luís
Alberto de Abreu. Discute temas como confinamento e perda de liberdade
num Brasil de grandes diferenças sociais, com cercas elétricas e carros
blindados. Transformando São Petersburgo num claustrofóbico campo de
miseráveis em caixotes de madeira empilhados.
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N Ã O
P E R C A S E U T E M P O
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| Não perca seu
tempo com as atualizações ou adaptações dos clássicos de Willian
Shakespare para o cinema, que chegam a ser constrangedoras de tão ruins.
Entre as piores estão: Hamlet ( EUA - 2000 Ethan Hawke como Hamlet), 10
coisas que eu odeio em você ( EUA - 2000 - A megera domada) - Titus (EUA
- 1999). |
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I Litle more: |
Fiodor Mikhailovitch Dostoievski
(1821 - 1881) Nasceu em Moscou, estudou engenharia numa escola militar de
São Petesburgo. Sua primeira produção literária, aos 23 anos, foi uma
tradução de Balzac (´Eugénie Grandet´). No ano seguinte escreveu seu
primeiro romance (´Os pobres´), que foi bem recebido. Com os escritores e
críticos que conheceu tomou contato com os ideais revolucionários. Juntou-se
aos socialistas. Nessa época sua epilepsia começou a se manifestar. Foi
preso com um grupo de amigos socialistas em 1849. No julgamento que se
seguiu, por alguma razão Dostoievski foi considerado o líder do grupo e
condenado à morte. A sentença foi mudada por intervenção do imperador em 4
anos de trabalhos forçados na Sibéria seguidos de alistamento compulsório no
exército. (Essas experiências foram registradas em ´Memórias da casa dos
mortos´, 1862.) Ficou no exército até 1858, quando sua saúde o obrigou a
pedir dispensa. Casara-se no ano anterior com Marya Isaeva, mas foi um
casamento infeliz. Já não era mais socialista. Voltou a São Petersburgo em
1859 e nos vinte anos seguintes escreveu seis longos romances, entre os
quais suas obras-primas: ´Crime e castigo´ (1866), ´O idiota´ (1869), `O
Jogador (1866)´, Os demonios (1871)’ e ´Os irmãos Karamazov´ (1879). Seu
segundo casamento, com Anna Snitkina (1867), ocorreu três anos depois da
morte de Marya. Logo depois marido e mulher tiveram de fugir dos credores
para a Alemanha. Viveram também na Suíça e na Itália. De volta à Rússia,
Dostoievski transformou-se num conservador, capaz de ser o editor de um
periódico reacionário. Morreu em São Petersburgo em 1881. |